A visão holística da Indústria 4.0
Posted on December 16, 2020
Por Rodrigo Pastl, Fraunhofer Liaison Officer no Brasil
O fenômeno que vem sendo chamado de 4ª Revolução Industrial teve início há algumas décadas, com a criação das primeiras células de produção a combinar tecnologias da informação e de manufatura em tempo real. Logo surgiram as primeiras linhas de produção e plantas inteligentes. Mas transformar uma célula, linha de produção ou até mesmo uma fábrica inteira, utilizando TI e comunicação entre máquinas e pessoas de modo a aumentar a eficiência na produção, é diferente de tornar todo um empreendimento inteligente, de uma ponta à outra. Hoje, com empresas globais e cadeias de produção e distribuição cada vez mais complexas, a ideia de manufatura inteligente evoluiu para a de negócio inteligente, o que aponta para novos paradigmas em produtividade, eficiência, resposta rápida e customização de produtos.
A Indústria 4.0 promove uma ligação entre todos os níveis da própria indústria – seja uma planta industrial ou corporação – e o mundo externo – o cliente ou consumidor. Trata-se não apenas de obter uma devolutiva do consumidor, muitas vezes por meio da análise de dados das redes sociais, mas de efetivamente considerar esse feedback e inseri-lo na cadeia produtiva rapidamente, de forma a atender às necessidades dos clientes da forma mais ágil possível. Essa otimização em tempo real gera impacto positivo não apenas na credibilidade da empresa, mas na qualidade do produto ou serviço. Essa é a essência da Indústria 4.0.
Este foco nas pessoas parece contrastar com ideias geralmente associadas às tecnologias digitais. Mas ele é tão determinante que nem mesmo se limita aos clientes e consumidores. Tome-se a automação, por exemplo, processo crucial na Indústria 4.0. Sem o conhecimento humano, não há automação, já que a aprendizagem das máquinas se dá primordialmente a partir das pessoas. Quando falamos em transformação digital, considerando-se o volume de processamento de dados necessário para o sensoriamento, por exemplo, a automação da captação de dados também libera tempo considerável para que as pessoas se concentrem em outras atividades, que não as mecânicas, além de permitir uma análise mais rápida de informações.
Tudo isso evita desperdícios e, portanto, aumenta ganhos, porém não apenas financeiros. Os robôs e sensores também ajudam a aumentar a segurança e ergonomia para os trabalhadores, tirando-os da linha de frente em serviços e atividades com altos riscos de segurança. No conceito de manufatura enxuta, ou manufatura lean, só se investe em algo se houver propósito real. Se o propósito da automação for melhorar a vida do trabalhador, o investimento certamente será válido.
Decisões que consideram todo o processo
Uma das questões mais importantes para a Indústria 4.0 é a descentralização da tomada de decisões. É importante e necessário que haja autonomia em cada processo, mas quando toda a cadeia está conectada, as decisões consideram critérios diversos. Por exemplo: em um processo de fabricação, uma máquina específica detecta um momento de ociosidade em que poderia fabricar mais um produto. Com a visão completa da cadeia, ela percebe que com isso só geraria estoque; o produto extra não seria vendido e só traria custos adicionais. Assim, mesmo parecendo eficiente, a decisão de aproveitar o tempo ocioso para produzir mais não seria a melhor decisão. Otimização em tempo real significa descentralização na tomada de decisões, porém como o processo de produção “conversa” permanentemente, essas decisões são sempre baseadas na visão do todo.
Essa integração beneficia todos os setores da indústria, mas sua implementação enfrenta, claro, alguns desafios. A capacitação de pessoas, inclusive de áreas não-técnicas, é um deles. Os nove pilares da Indústria 4.0 – análise de dados, robótica, simulação, integração de sistemas, Internet das Coisas (IoT), cibersegurança, cloud computing, manufatura aditiva e realidade aumentada – podem gerar confusão a respeito de qual tecnologia adotar para cada processo, e essa decisão muitas vezes é tomada por gestores não necessariamente familiarizados com elas. É fundamental que as pessoas de todos os níveis, cargos e funções sejam capacitadas, e que os gestores saibam também escutar a equipe técnica. Não por acaso o conceito de manufatura lean empresta das artes marciais a figura do Sensei para falar em liderança. Alguém que ao mesmo tempo inspira e dá autonomia, levando a decisões que garantam que não haja desperdício, mas que haja real propósito.
Durante a pandemia da Covid-19, praticamente todas as empresas passaram a oferecer serviços digitais e remotos, além da venda de produtos online, o que acelerou a transformação digital. A grande questão tem sido conseguir entregar na venda online o mesmo valor da venda presencial para o consumidor. Um dos pontos críticos, no Brasil, é a logística, principalmente terrestre. Por maior que seja a velocidade de produção, há gargalos na logística de distribuição. E ainda assim, também aqui houve recordes de vendas nesse período.
Há ainda outros desafios específicos locais para o sucesso na Indústria 4.0. Uma das vias de superação desses desafios pode estar nas parcerias como as promovidas pelo Enrich – Centro de Inovação Brasil-Europa, que com foco nas complementaridades das duas regiões busca estimular cenários em que ambas se beneficiem.
Estamos em meio a uma significativa transformação da indústria, graças à digitalização de seus processos. Essa transição só poderá ser efetivamente uma revolução de sucesso se for orientada por pessoas – na gestão dos processos e na ponta, como os clientes e consumidores para quem geramos valor.