A importância dos hubs para a aceleração da inovação

Posted on December 18, 2020

por Rafael Navarro, presidente da ANPEI

Uma análise breve de qualquer ranking – nacional ou internacional – de empresas inovadoras, que causam impacto tanto em termos de negócios quanto na cultura e nos hábitos das pessoas, indica que tentar medir a capacidade de inovação aplicando recortes convencionais – setor, tamanho, tempo de mercado – não faz mais sentido.

Considere-se, por exemplo, tempo de mercado – há empresas novas em franco crescimento, porque já nasceram com capacidade para rápida adaptação. Por outro lado, existem empresas novas que muitas vezes não conseguem responder com agilidade às mudanças. E há companhias centenárias que, por terem compreendido bem o cenário atual, estão crescendo e diversificando suas atividades, estimulando o intraempreendedorismo ou buscando parcerias para ampliar recursos e capacidades – e esse é um aspecto muito positivo do contexto atual. A capacidade de inovar está ligada à agilidade na leitura de cenário, mas as possibilidades de resposta a partir dessa leitura são inúmeras.

É fato que as melhores respostas às transformações em velocidade exponencial que vivemos hoje muitas vezes são resultado de decisões tomadas há anos.  Em muitos casos, inclusive, esses resultados são fruto de investimento em atividades não necessariamente ligadas ao core business da empresa, como iniciativas para acelerar a digitalização de processos. Outro fator que impulsiona o êxito em cenários voláteis como o atual é o investimento contínuo em atividades de Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação.

Via de regra, os avanços tecnológicos mais disruptivos resultam de pesquisas que se iniciaram muito tempo atrás, talvez até com objetivos iniciais distintos dos resultados. Uma cultura consistente de inovação considera a importância da continuidade e diversificação das atividades de P&D, pois sabe que mesmo com todos os riscos envolvidos, e com resultados não necessariamente em curto prazo, a pesquisa cria a base que possibilita negócios exponenciais. 

Financiamento e parcerias são caminhos promissores

Mas mesmo quem ainda tem um longo caminho à frente na criação de uma cultura de inovação em sua empresa pode encontrar atalhos – o acesso a fundos e às parcerias certas são fatores essenciais nesse sentido.

Temos, no Brasil, um conjunto interessante de instrumentos de financiamento à inovação, mas em todos há espaço para aprimoramento. Embora esses instrumentos já estejam posicionados, os desafios à capacidade de investimento em P&D&I, que passam pelo contingenciamento de recursos e pela necessidade do aprimoramento de questões regulatórias, acabam fazendo com que os investimentos migrem para países com menos desafios.

As leis no modelo de renúncia fiscal, como a Lei da Informática (Lei nº 8.248/1991) e a Lei do Bem (Lei nº 11.196/2005), são de fácil compreensão e aplicação e incentivam o direcionamento de recursos para o avanço tecnológico dentro das empresas pela redução da base tributável. Um aspecto da Lei do Bem que vem sendo bastante discutido, porém, é a limitação da renúncia fiscal estar associada ao exercicio, ou seja, se a empresa tem lucro tributável naquele ano há o benefício, caso contrário o beneficio se perde, não acumulando para anos seguintes. Como  os aportes em P&D são continuos, independentemente do resultado da empresa, esta lógica precisa ser revista.

A reivindicação do fomento à inovação não é nova, mas a crise econômica gerada pela pandemia da Covid-19 trouxe o tema à pauta novamente. Poucas empresas devem apurar lucro tributável em 2020 e provavelmente alguns anos se passarão antes do mercado retornar ao estágio pré-crise. Neste cenário, tramita no Senado Federal um projeto de lei que altera a Lei do Bem, permitindo que o excedente do percentual dos dispêndios com pesquisa tecnológica excluído do lucro líquido das empresas possa ser aproveitado em períodos de apuração posteriores, quando houver o lucro.

Temos também fundos como o do Plano Nacional de Ciência e Tecnologia do Setor de Petróleo e Gás Natural (CT-Petro), os fundos setoriais que compõem o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FDNCT), a Finep, agência pública que financia a inovação com importantes recursos de subvenção (não reembolsáveis) às empresas. Há também organizações sociais como a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII), que – com um modelo de fomento desburocratizado e a articulação de parcerias entre empresas e instituições de pesquisa tecnológica – acelera muito a inovação e o desenvolvimento tecnológico no país.

No Guia para o Financiamento da Inovação no Brasil, publicação do Enrich – Centro de Inovação Brasil-Europa, instituição que promove a cooperação em pesquisa, tecnologia e empreendedorismo entre as duas regiões, é possível encontrar um panorama dos principais instrumentos de incentivo públicos e privados para o desenvolvimento de novos modelos de negócios. Elaborado em parceria com a SPI – Sociedade Portuguesa de Inovação e com o CONFAP – Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa, o guia lista e detalha os tipos de investimento disponíveis no Brasil para a criação, desenvolvimento e ganho de escala de negócios inovadores. A publicação também faz uma análise dos dados sobre os investimentos em P&D&I no Brasil nos últimos anos e inclui um capítulo que se concentra nas startups, especificando desde programas públicos e privados de apoio a alternativas de crowdfunding.

Outra maneira de acelerar processos é integrar empresas e instituições de pesquisa acadêmica, como as universidades. Fica cada vez mais clara a importância de um olhar para a complementaridade entre a atuação e o conhecimento das instituições de pesquisa e as empresas, que materializam os projetos e os colocam no mundo. As fundações de amparo à pesquisa têm recursos e modelos interessantes, como o dos Centros de Pesquisa em Engenharia da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), que tem trazido bons resultados pela junção de esforços, pela colaboração entre setores diferentes em pesquisas que reúnem agentes com necessidades complementares de forma orquestrada.

O acesso a fundos, o compartilhamento dos esforços de pesquisa e a convivência com parceiros diversos são atalhos para a inovação, mas vivemos uma realidade cada vez mais complexa em nível mundial, por isso também é de fundamental importância o papel das entidades que atuam como hubs de inovação, fornecendo verdadeiros guias para se navegar este contexto com mais segurança, oferecendo informações específicas e facilitando a cooperação em pesquisa tecnológica. Instituições como o Enrich – Centro de Inovação Brasil-Europa e a Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (ANPEI) criam ambientes para conexões relevantes, ajudam as empresas a entender onde buscar fundos e compreender mecanismos e questões regulatórias para que parcerias e projetos sejam viabilizados. Encurtam caminhos, reunindo vasto conhecimento das regiões que representam, também somando, entre elas, conhecimento e capacidades.

Como indivíduos, é difícil que, sozinhos, possamos compreender tudo o que precisamos para evoluir, ou até mesmo ter a dimensão do que precisamos saber para conduzir determinada situação. Quanto mais conhecemos, mais claro fica o quanto ainda temos a aprender – e com as empresas não é diferente. É cada vez mais importante, e imprescindível, a atuação de instituições que possam oferecer orientação prática em meio à complexidade e mediar parcerias e conexões que acelerem a inovação nos negócios.

European Union flag

ENRICH is an initiative of the European Union, executed in Brazil by the CEBRABIC project, that has received funding from the European Union’s Horizon 2020 research and innovation programme under grant agreement No 733531. Responsibility for the information and views set out in this website lies entirely with the authors.